Trinity Blood

Não sei porque sempre evitei resenhar esse mangá. Mas existe aquele momento em que não se pode mais adiar o destino e aqui estou para, enfim, deixar marcado nessas poucas linhas o universo complexo de Trinity Blood.

A cadeia alimentar de Trinity Blood é mais ou menos assim:
Os animais servem de alimento para os seres humanos, os humanos são o alimento para os vampiros e vampiros são alimentos para os Kresnik. Mas antes de chegarmos a cadeia alimentar desse mangá, vamos a história.

Trinity Blood traz um universo pós-apocalíptico, onde os Terrans (humanos) tentam coexistir com os Methuselahs (vampiros). Mas a história começa muito antes, quando devido ao excesso de pessoas no planeta foi iniciada a colonização de Marte. Como não deveria deixar de ser, os colonizadores descobriram no novo planeta duas tecnologias: os Bacillus, que os transformaram em vampiros, e os Kresniks, aplicados em 4 bebês de proveta. Assim nasceram os Methuselahs e seus predadores, mesmo que ainda não soubessem disso. Quando retornaram ao planeta Terra, iniciou-se uma guerra entre os humanos normais e os vampiros, envolvendo todos numa luta desregrada e perigosa. Nisso, os 4 bebês que já não eram mais crianças, entraram na brincadeira, porém de lados diferentes: Seth, Abel e Caim ficaram do lado dos Methuselahs e Lilith do lado dos Terrans. Guerra vai, guerra vem, o Armageddon chega, Caim enlouquece e mata Lilith, Abel se arrepende dos seus pecados e leva a sua amada para ser enterrada no Vaticano, ficando a chorar por 900 anos.

Mas, enquanto Abel chorava pelo sangue derramado, o mundo ao seu redor tenta se reeguer das cinzas e assim surgem as duas maiores forças políticas e militares, que vivem no limiar entre a paz e a guerra. Do lado dos humanos, trazendo consigo a AX e a Inquisição, a Igreja Católica de Roma, com sede no Vaticano. No lado dos Methuselahs, sob o comando de uma imperatriz muito velha mas ainda fresquinha, com sede em Bizzancium, temos o Império.

Só que como não bastasse tudo isso, ainda temos dois coadjuvantes: a Ordem Rozen Kreukz e a Monarquia Independente de Albion. Assim está montado o cenário para uma luta ferrenha e sangrenta entre Terrans e Methuselahs. Que apesar de toda essa magnitude, nada mais é do que o pano de fundo para a história pessoal de Abel Nightroad, agora um padre do Vaticano, pertencente a AX.

Particularmente, gostei de Trinity Blood por trazer uma trama sanguinária, mas com um enredo realmente bom e um ambiente pesado com toques de comédia muito bem encaixados. As lutas e as intrigas, tudo está conectado, cada acontecimento tem uma razão de existir. A história também mexe com muitas questões religiosas, trazendo a Igreja como uma força militar e política, como fora nos tempos da Idade Média, além de mostrar anjos negros, padres profanos, entre outras polêmicas. O interessante também é ver que nem todos os vampiros são maus e nem todos os humanos são bons. Há uma linha muito tênue entre o que é o certo e o que é o errado, nem tudo é o que parece, as motivações para as intrigas são diversas, é preciso prestar atenção e julgar por si próprio se tal personagem é mocinho ou bandido. O que nos leva ao outro ponto positivo de TB, em minha opinião…

Os personagens são um primor a parte, a começar por Abel, que desde o primeiro capítulo já sabemos ser um Kresnik e apresenta diversas faces: por trás do sorriso bobo e todo aquele jeito atrapalhado existe um kresnik foda, que bate e apanha sem dó nem piedade. Mas, além de Abel, vale destacar a Cardeal Caterina Sforza, a comandante da AX, Esther Blanche, par romântico de Abel e mais uns tantos outros personagens que possuem uma personalidade marcante, mesmo sendo coadjuvantes. Isso é algo realmente incrível num mangá relativamente curto e com tantos personagens como Trinity Blood, trabalhar a trama e os personagens de forma igual sem descuidar dos detalhes, tudo com uma explicação plausível para acontecer.

 Abel no modo Kresnik

E TB não só capricha na parte de enredo, mas também no desenho, que é caracterizado por um estilo bem detalhado sem se tornar pesado ou confuso, o que agrada aos olhos dos apreciadores de belos traços. As roupas e as cenas de luta são todas muito bem trabalhadas, para dar a sensação de veracidade ao desenho, e as expressões faciais dão a sensação de emoção real.

O mangá é baseado na série de light novels escrito por Sunao Yoshida, tem a arte de Kiyo Kuujou e Shibamoto Thores e está sendo publicado pela Panini. Mas há um porém, Sunao morreu antes de concluir a história das light novels, sendo que o projeto continuou com o seu amigo e espera-se agora o final de toda a trama.