mar 11 2010
Tobaku Mokushiroku Kaiji (2)

Não sei quanto a vocês, mas sempre quando inicio uma leitura ou vejo um animê, filme, whatever, procuro de alguma forma viver dentro do universo criado pelo autor, seja vivenciando o protagonista (Sayonara Zetsubou Sensei), tomando suas dores (Nyan Koi) ou usurpando algum coadjuvante (Suzumiya Haruhi) ou assumindo os ideais do vilão (Death Note) ou até mesmo me transformando em uma entidade invisível que acompanha o grupo (Druaga no To), sentindo psicologicamente os temores e felicidades inesperadas.
Deve ser por isso que Tobaku Mokushiroku Kaiji foi tão foda, uma surpresa agradável que trouxe desagradáveis momentos de tensão para minha mente, praticamente uma armadilha para leitores como eu.
Explico: Sabe a brincadeira de gato e rato entre o visionário Kira e o sagaz L, de Death Note? Lembra das estratégias do astuto Zero, de Code Geass? Então, junte essas características, coloque em uma forma untada previamente com doses de realidade, adicione a seguir dez colheres cheias de sadismo e uma gotinha só de esperança e você terá a essência desse animê/mangá.
Em vez de usar armas ou itens mágicos para solucionar os problemas, meu caro, você terá somente a sua inteligência e um punhado de regras. Sim, regras, pois a história coloca o protagonista no meio de um jogo, literalmente. Antes que perceba você estará dentro de um cruzeiro, junto com outros 30 infelizes participando de um jogo onde quem vence leva para casa milhões, mas não se engane, não é o Seooo Silvio que está bancando isso, pois, se perder, estará condenado a trabalhar em regime de escravidão até o resto da sua vida.

Itou Kaiji é o personagem principal, vagabundo, um filha da mãe que vive arrancando emblemas de carros e esvaziando seus pneus, só para fazer o mal, mesmo. Até que chega em sua casa um homem bem vestido, assim como qualquer demônio, um cobrador. Tal homem viera em busca do pagamento de uma dívida que a princípio era 300.000 ienes, mas que já havia se tornado 3,85 MILHÕES.
Ora, Kaiji não passava de um fracassado, um invejoso que desconta sua frustação na propriedade alheia, como um f*dido desses pagaria 3,85 MILHÕES?
É respondendo a essa pergunta que se dá o início da tormenta que se tornou a vida de Kaiji e, por tabela, a minha. Com um sorriso cabuloso, tal homem oferece uma oportunidade para Kaiji ganhar um prêmio suficiente para pagar sua divida e ainda viver como um rei para todo o sempre, bastava embarcar no cruzeiro e vencer um jogo.
A partir daqui, Kaiji participa de vários jogos sádicos, onde o prêmio sempre é uma fortuna e a derrota custa talvez a sua mão ou suas pernas ou sua audição, se quiser mesmo arriscar o grande prêmio, terá que por na mesa sua vida, e não estou falando de simplesmente morrer, mas sim de viver o que ainda te resta da pior forma possível.
Mas Kaiji, assim como J. Climber, não desiste nunca, e com o pouco de coragem que lhe resta, sempre que acaba de ouvir as regras de um novo jogo, procura mentalmente analisar todas as possibilidades, procura brechas nas regras, procura parceiros para fomentar suas estratégias e procura, acima de tudo, contar com que não seja traído por seus novo colegas, tão desesperados por suas vidas quanto ele.

Do outro lado da história estão as pessoas que bancam as brincadeiras, para elas, é satisfatório assistir vagabundos temerem por suas vidas. Você não verá os rostos deles, apenas de dois, o tal homem que bateu na porta de Kaiji e a face do homem que manda em toda essa “seita”, e garanto que depois de conhecer esses dois, você não irá querer saber de mais ninguém.

As regras de um jogo são explicadas minuciosamente, assim como Kaiji simula passo a passo cada possibilidade até encontrar uma que possa trazer a vitória, analisa também quem pode ser seu companheiro, evita os fracassados que, de tanto medo, não conseguem ficar em pé, evita aqueles que estão tentando alguma estratégia que já considerara falha, não tem como o leitor não ficar preso pois nada é magicamente resolvido, é tudo na base da lógica, fria e calculista. Você chegará a mesma conclusão que Kaiji chegou e ficará travado com a possibilidade de perder um membro ou servir como escravo em trabalhos forçados para sempre.
Para alguém que se transporta para dentro do universo da história, como expliquei no início, é aterrorizante.
O estilo do mangá/animê é bem cartunesco e poderá fazer com que você desista logo de cara, mas não se deixe influênciar, esse traço torna as expressões de pânico, medo e crueldade ainda mais aterrorizantes, raramente você encontrará momentos felizes por parte do protagonista e, pelo que lembro, não há peitos ou decotes, não há fanservice. O que existe é um grande jogo mental, distribuído em vários jogos, e se você se acha um frio e calculista como o Raito ou um ótimo estrategista como Lelouch, pense de novo, confira essa história e veja se você não vacilaria.
Tobaku Mokushiroku Kaiji já possui 39 volumes e já foi transformado em animê, intitulado apenas de Kaiji, contando com 26 episódios, mantém o mesmo traço cartunesco e igualmente foda ao mangá. Está prevista para este ano sua segunda temporada e um live action.
Ao final da história, quando finalmente minha mente estava livre, só pude pensar em uma coisa: “Não duvido que algo assim aconteça em algum lugar no mundo”.
