Século XXI: Era dos mutantes

Por que fica tão difícil definir hoje o gênero de um animê? Há, uns vinte anos, era só olhar pra duas cenas e você poderia dizer que é shoujo por causa do olhar de cachorro perdido da protagonista, que é shounen por causa do soco do protagonista ou é seinen porque o protagonista não é tão imaturo ou ao menos pensa nas ações que está fazendo. Agora não, você está no meio de uma luta sensacional, então temos um falatório de dois episódios sobre a relação de amor/ódio dos personagens (SIM, Naruto, é de VOCÊ MESMO que estou falando) e então surge um grande poder que acaba com tudo e vemos que os dois se entendem profundamente. OK, se a maior parte do animê mostra a garota querendo conquistar o garoto, é bem provável que ele seja shoujo. Mas e se, mesmo assim, ele for bem próximo de um shounen?

Vou citar um exemplo bem recente pra mim. Alguém já ouviu falar de Princess Lover? Pelo nome, apenas mais um daqueles shoujos melosos com uma garota que se torna princesa e tem vários príncipes para escolher, certo?… Er… Bom, não deixa de ser isso, mas trocando os gêneros. E de repente se torna uma comédia, e então vemos peitões, bundões e de repente há luta e então. Sério. Você pode assistir dez episódios dos doze e ainda continuar em dúvida, porque é uma miscelânea de tudo que já vi. Bom… E daí? Daí que, quanto mais avanço na lista de animês que conheço e são atuais, vejo esse padrão formado.

Exemplo? Em breve estreiará Bakuman. Ele é um dos carros-chefe da revista Shounen Jump, apresentando uma trama inteligente, envolvendo dois garotos correndo atrás de seus sonhos e… Enfrentando desafios “comuns”. Só. Não tem lutas, não tem aquelas discussões de doze capítulos sobre amizade, eles até se separam em alguns momentos, mas aginda da forma que você agiu quando seu amigo pegou metade da coleção de Magic de vocês. É… Ah sim. E a relação amorosa do protagonista 1 é meio estranha (a do 2 também, mas ainda pode ser considerada normal), mas não é cheia de rebuliços a ponto de Bakuman ser um espião da Lala infiltrado na Jump. E aí? O que define que ele é um shounen?

É aquela velha história que quem tá fazendo ou fez faculdade em algum momento do curso ouve: Paradigmas, ou seja, conceitos de alguma coisa, são feitos apenas para serem substituídos algum dia. A Terra é quadrada, o centro do universo, somos a única forma pensante do universo, Coca é melhor que Pepsi, shounen é pancadaria… A verdade é que o termo shounen nem funciona mais para designar um produto envolvendo lutas sem fim e explosões de emoções como raiva, inveja, sentimento de lealdade ou warévar. É todo aquele mangá que garotos vão gostar de ler, e garotos mudam, assim como o mundo, então é normal que os shounens ganhem novas dimensões. E já se foi o tempo que apenas garotos liam shounen e garotas liam shoujo. É uma convenção velha e falha.

Vejam que já faz anos que alguns animês vagueiam pelos dois lados da moeda. Assim como Negima possui laços profundos com o romance shoujo (o que se tornou a marca registrada do Akamatsu), metade dos produtos CLAMP, como Tsubasa, Rayearth e Sakura, envolvem alguns ótimos momentos de ação. As comédias harém, cada vez mais comuns, misturam comédia que garotos e garotas curtem com situações que ambos os lados poderiam passar em um romance, considerando os devidos exageros, claro. Para citar uma, Ouran. Metade dos leitores que conheço da série são homens, todos leitores de shounen de pancadaria, mas que acham hilárias as situações envolvendo Haruhi, os gêmeos e o Tamaki. E é bom isso. A estrutura de Princess Lover, citada ali em cima, pode ser uma confusão, mas é provável que seja o sistema utilizado daqui em diante. E vamos ter que nos contentar.

Bruna

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