jul 27 2010
Pirataria: O mito e a realidade

Antes de mais nada, o Sake com Sal, como fonte de informação, não é favorável à pirataria, que não aquela que o AOE criou, com seu público realmente beberrão, fã de churrasco e de gordinhas. Também não divulga links, então o texto a seguir não terá nenhum link direto para os sites que citará. Se vocês forem espertos, saberão o que fazer. Vamos lá…
O One Manga fecha essa semana. Para os treze desesperados que ainda não sabiam, podem dar uma corrida lá e verificar. Eu dou um minuto. Três pra quem usa 3G. Uma hora para quem usa discada (ainda fazem isso?). Viram? Então sabem que este é um fim de uma era. Sem tentar muito, o OM é/era um dos principais sites de leitura online de mangás em inglês há muito tempo, lançando praticamente todo dia capítulos novos de uma quantidade obscena de títulos, todos de fansubbers aqui e ali, divulgando mangás que ninguém conheceria fora do circuito japonês não fosse por sua dedicação em agradar aos seus leitores. Que não eram poucos. De forma alguma.
O caso é que o que o OM, assim como outros, fazia, incomodou aqueles que participam da grande indústria. E eu não falo apenas dos produtores de mangá, seus autores ou acionistas. Falo também de você, leitor, que discorda da atitude de quem lê mangás na internet. Hoje eu estou aqui pra servir de advogado do diabo e defender um pouco a atitude do One Manga, assim como também serei promotor público e mostrarei suas fragilidades. Por mais que fosse um negócio limpo, há muita sujeira envolvida quando falamos de divulgação gratuita de conteúdo. Afinal, algum de vocês já pagou para poder ler um capítulo de Naruto no OM? Imagino que não.
Em primeiro lugar, não é preciso entrar numa discussão se é ou não pirataria, o que realmente importa aqui é debater a questão de se prejudica ou não a indústria do mangá. Como não sou americano (estadounidense ou o escambau), só posso falar da indústria nacional e sou obrigado a comentar que nunca conheci um leitor do OM que não comprasse títulos que houvessem nas bancas e em um lançamento justo. Em tempo, Evangelion está para se tornar completo (em partes…), mas One Piece é um caso claro de que não há certezas quando você vai comprar um mangá nas bancas. Seja por mudança de formato no meio do caminho, aumento considerável do preço ou simplesmente interrupção de sua publicação. E aí? Como ficam os fãs que gastaram mais de trezentos reais na compra de 70 edições e estão há três anos esperando a continuação? Resumo: Procuram na internet.
E é aí que entra a maior utilidade dos tradutores: Divulgar. Vejam bem, eu não seria hoje fã de Fairy Tail se não tivesse como conhecê-lo. E tenham certeza, assim que a JBC colocar na banca a primeira edição, eu estarei lá com meus suados R$9,90 e comprarei esse volume. E é aí que entra a maior contradição dos argumentos contra os sites de tradução: que eles são a morte da indústria. Primeiro que não faz nenhum sentido, afinal de contas, se Naruto vendeu bem com o lançamento da Panini, não foi porque milhares de pessoas que desconheciam o mangá foram comprar na banca. Não, quem o fez já conhecia a obra, seja por causa de ter lido em sites como NarutoProject ou baixado episódios do animê. Pior, é bem provável que a editora tenha entrado em contato com a Shueisha sabendo disso. E se ela foi prejudicada, em algum momento, não seria por causa dos tradutores, que já existiam antes de baixarem as vendas do título, mas por causa da avalanche de novidades no mercado, anualmente. Lembrem-se, eu anunciei NOVE obras novas só pela JBC. 9. Nine. Kyuu. Haja bolso para comprar isso tudo. E pra quem ainda não fez os cálculos, dá quase 100 reais, se todos mantiverem o padrão atual da editora.
“Mas, Black, e quem não compra isso tudo?”. Este não é o ponto aqui, pequeno gafanhoto. O caso é que teoricamente a pirataria é a vilã de todos os fracassos editoriais, mesmo quando ela formenta a mesma indústria que a detona. Seja no cinema, com filmes vazados que ainda fizeram sucesso na bilheteria, seja nas músicas, que culpam cada vez mais o sistema de distribuição virtual pela queda constante de seus lançamentos. Por favor, quem aqui pagaria R$40 reais em um cd com 12 novas letras quando é lançado um por ano e de forma unicamente comercial? Havia uma diferença grande de trinta anos atrás, não só porque não havia internet, como era difícil você conhecer bandas do estrangeiro que não são de grande porte e que valem mais a pena do que aquela mainstream que tem decaído muito em qualidade. Perde o mercado dos cd´s, ganha o dos shows, cada vez mais lotados. Sério, há algo de estranho aí.
Por outro lado, o OM cometeu algumas infrações sim, e não se pode dizer que não lucra nada. Ele tem links patrocinados e divulgação, além de trabalhar com material que ele próprio não produz, e eu não estou falando dos capítulos originais. O One Manga hospedou vários projetos de outros tradutores, os quais sangravam para produzir aquela limpeza essencial e colocação das falas em inglês, e não se dava a mais nada do que colocar on-line. É ruim? De certa forma, sim, e não se pode dizer que não havia aí lucro. A questão é se esse lucro é o suficiente para colocá-los acima de tantos outros grupos que fazem pior. E vocês, imagino, sabem do que falo. Há tanta deturpação aí de sonhos alheios que não se pode dizer de outra forma: a internet contém a horda do trabalho independente, com vocação pra distribuição em massa de material privado por preço algum. E não há como impedir, queiram eles o máximo possível. Só resta dizer: sinto muito, indústria dos mangás, mas o seu passo ainda é muito curto. Comecem a correr.
