O papel do protagonista

Protagonista

Antes do texto, sou obrigado a dizer que se não fosse uma discussão acalorada hoje envolvendo Tite Kubo e Masashi Kishimoto, o OEAM poderia não ter saído. Dessa discussão com um amigo (que com certeza vai aprender novas técnicas de assassinato antes da gente se encontrar de novo…) eu tirei uma certeza: Há muitos problemas hoje de desenvolvimento de tramas porque os autores acabam esquecendo uma regra básica: Há protagonistas, coadjuvantes e antagonistas, e eles podem passear entre cada categoria, mas não podem ser todos a mesma coisa, protagonistas.

Para começar, utilizando os exemplos da discussão: Kubo, Kishimoto e, ocasionalmente, Oda. Os três cometem sérios erros de colocação dos personagens em cena em situações diversas, considerando o que nós, leitores, difilmente conseguiriamos perceber, que é a trama como um todo. Oras, eles podem saber exatamente como terminam suas obras, mas como a gente, que lê apenas um capítulo por semana, pode ter essa mesma visão? Diacho, pior ainda é que ficamos viajando, o que permite que acabemos desenvolvendo aquelas teorias insanas que povoam a internet e acabam criando fóruns de discussão inteira para saber afinal quais são as medidas de Nami, Hinata e Matsumoto (PS: Obrigado Kubo e Oda por já terem nos fornecido os dados, agracemos muito).

A princípio, a briga maior dos fãs com Kishimoto é exatamente com seu desleixo para com seu protagonista, ao menos na visão daqueles que não aguentam mais ver páginas e páginas com o antagonista-mór Sasuke Uchiha. Não, é sério, já vi gente que desistiu do mangá por causa da insistência do autor em dar consistência e mais consistência para o rival estrelinha do protagonista, até o ponto que entornou o caldo. No caso de Kishimoto, o erro é passar do ponto e acabar deixando de lado os muitos ingredientes que separou antes de fazer a receita. Como bem disse meu amigo prestes a virar matador profissional, Masashi K. simplesmente ignora os muitos coadjuvantes que pode utilizar, quando não faz pior, os utiliza de forma pífia e ridícula. Recentemente, podemos ver três bons personagens reduzidos a marionetes pela ruiva chorona que vive atrás do Sasuke. Se você entendeu isso, sabe que foi uma situação inteligente, mas muito, e eu digo MUITO forçada. Para deixar ainda mais amargo o resultado, o já supra-citado Sasuke é acompanhado de outro vilão, este com certeza Overpower, em sérias situações duvidosas de combate, conseguindo o mérito de estar invicto, o que não quer dizer que seja boa coisa.

Seguindo a linha, temos Tite, cujo nome já especifica bem sua preferência (aqueles que sabem inglês, riam comigo e ovacionem o criador de Inoue Orihime), que tem o péssimo hábito de criar mais personagens por saga do que é capaz de torná-los profundos. Pior, ele chegou ao extremo de originar ótimos designs e estilos de luta para simplesmente sacrificá-los em batalhas completamente desnecessárias. Meu argumento se fortifica quando coloco que um mangá shounen não precisa ser necessariamente só luta, e Bleach já está há mais de cem capítulos em contínuas batalhas com mais de uma dezena de baixas. Se o bolo de Kishimoto é amargo, o de Bleach é de um doce horrendo, daqueles hidrogenados que você vai ganhar na próxima páscoa. A culpa maior? Aizen. O antagonista de Kurosaki Ichigo (e maior modérfôquer que já vi) não precisava de muito mais para ser considerado um vilão estiloso, mas não! Kubo tinha que torná-lo ainda mais poderoso e quase invencível (porque não acredito que o mangá vai acabar sem ele fazer ao menos UMA VEZ a cara de desespero). O pecado de Kubo é exatamente seu maior trunfo. Ele consegue criar ótimas guerras, ótimos personagens, ótimas armas, mas tudo em excesso enjôa e, no final, temos uma quantidade absurda de protagonistas, já que poucos podem ser considerados coadjuvantes de verdade em Bleach.

E temos Oda, cujo pecado é pura e simplesmente o fato de ser muito bom no que faz… Peraí, volta aqui, deixa eu explicar! Acontece que Oda conseguiu o troféu de Cara com Melhor Memória do Mundo ao conseguir levar 10 anos de mangá e ainda ser capaz de lembrar de todos os personagens, dando chance para que antigos vilões e coadjuvantes retornassem em cenas memoráveis, quando não somos presenteados com participações especiais de gente que melhorou muito desde sua longínqua partipação (Coby e Herumeppo, é de vocês mesmos que falo). E aí o mangá se torna X-Men e a gente chora com as reviravoltas constantes. Não que eu esteja reclamando, mas como fã de longa data, sou obrigado a afirmar que hoje em dia é difícil começar a gostar de One Piece pelo que se vê. O mangá não perdeu qualidade, sinceramente falando, só se tornou tão denso, mas tão denso que se tornou complexo demais. Sendo mais grosso (ui), Oda mostrou o dedo do meio ao sumir com vários dos pretensos protagonistas (e demonstrando que o centro da história é realmente o Ruffy) e adicionando novos personagens a lot, por uma fase extensa e, devo dizer, muito profunda. No nível Fossas Marianas. Pois é. Assim, Oda abusou do direito de criar e descriar coadjuvantes e de mudar os conceitos de protagonistas, antagonistas e coadjuvantes, dando um nó na cabeça de seus fãs (e do resto do mundo, acredito eu). Fica complicado gostar de um mangá assim.

Se eu só vim criticar? Não, posso elogiar também. Yoshihiro Togashi, um dos meus autores favoritos (apesar de caloteiro), fez um ótimo trabalho em Yu Yu Hakusho e tem se saído bem em Hunter X Hunter, provando que é possível simplesmente deixar o protagonista de lado por um tempo para desenvolver outros personagens, sem precisar deixar os fãs irritados com a superexposição de um coadjuvante ou antagonista. Já Katsura Hoshino colocou em dúvida algumas vezes o papel do protagonista de D. Gray-Man, Allen Walker, e nos fez gostar de vários coadjuvantes, sem tornar a trama alucinada ou deixar de ser divertida. Mais, ouso dizer que DGM está fazendo um papel melhor com seus leitores do que os três autores que fiquei destruindo aí em cima. Se é pra falar de shoujos, posso citar o estúdio CLAMP. Por mais que despreze o grupo, na maioria das suas obras todos os personagens são bem trabalhados e conseguimos apreciar o tempo em cena de cada um. Oras, em alguns casos, como Ouran Host Club, a autora, Bisco Hatori, consegue fazer com que os coadjuvantes roubem a cena por instantes, apenas para quebrar a tensão do momento (algo que Tite tentou fazer com Kon em Bleach), exatamente aquilo que se espera de coadjuvantes cômicos.

Sinceramente, o grande problema é dos autores que se vêem obrigados a seguir receitas prontas para desenvolver sua trama, tentando provar exatamente o contrário e aí entrando em contradição. Poderia citar ainda os gag haréns típicos, como To-Love Ru e Love Hina, nos quais os coadjuvantes se tornam estorvos a medida que eles passam a atrapalhar o desenrolar da história mais do que ajudar. Pra completar, se querem um exemplo de como um mangá pode mudar de figura sim, não custa lembrar de Reborn! (Katekyo Hitman Reborn! para fins de pesquisa) que conseguiu transformar seus coadjuvantes engraçados em bons personagens de um shounen de ação. E, Shika (o amigo que está comprando a katana neste momento), sinceramente, tanto Kishimoto quanto Kubo precisam aprender algumas coisas em breve se querem fechar suas histórias com estilo (e fãs ainda).