jun 6 2011
Mimimi Nacional

Não sou um leitor com preconceitos. Por isso, sou capaz de ler do mais mequetréfe dos mangás ao mais brilhante, sem ter os surtos psicóticos que me fariam querer esganar o autor. Bom, tirando aqueles tão doces, mas tão doces que me fazem ter diabetes só de ler a primeira página, mas aí é caso clínico. Só que há um porém, e dos grandes: o termo muito utilizado nos últimos três anos, “mangá nacional”. Eu admito, nunca li e não tenho o mínimo interesse de ler Luluzinha Teen ou Didi em Mangá (ou como se chamar o subproduto Didi e Lili), todavia, já tive em mãos e passei os olhos por vários Turma da Mônica Jovem. E, claro, sou da geração Holy Avenger, então conta, certo? Errado. Mangá nacional é algo bem diferente e é o tema aqui hoje. De novo. Eu sei, já falei sobre isso, mas uma certa coisa que achei na banca reativou o debate. Vamos lá então.
First, porquê nenhum dos itens citados anteriormente é um mangá nacional? Bom, há uns dez anos e até recentemente o Cassaro (Marcelo, um dos cabeças por trás do RPG Tormenta e autor da bagaça) afirmava que Holy Avenger não é um mangá. Por quê? Porque ele é um quadrinho, brasileiro por sinal, com traços de mangá, mas mantém sua identidade, nada a ver com uma reprodução das técnicas japonesas. Por esse caminho, Turma da Mônica Jovem também bateu na tecla de que não é um mangá logo nas primeiras edições. Como os outros dois são clones de TMJ, lógico que também não sejam mangás. Então, não existe mangá brasileiro? Aí… É que entram as coisas lado B. Pra começar, o que classificaria um mangá brasileiro? Ser de trás pra frente? Ter narrativa continuada? Ser em preto e branco? Tudo isso e nada disso. Mangá não é só um apanhado de características visuais, mas a linguagem. Se fosse tão simples, uma HQ de nada diferenciaria de uma Graphic Novel (Ok, forcei a barra). Perceba, se ler Darkness, uma típica história em quadrinhos e ler Berserk logo em seguida, verá uma série de similariedades. Mas elas não são a mesma coisa, nem de longe.
Você? Mangá? Tira essa roupa vermelha que tu é moleque, entendeu? MOLEQUE!Vamos enumerar então características que podem ser (ou não) definitivamente de mangás: Uso de onomatopéias, mesmo que suaves; foco em personagens, não em cenário; grandes espaços de silêncio (aqueles quadros em que as coisas não acontecem, há o “descanso” visual). Opa, então aquelas tirinhas de comédia são mangá? Não exagera, pequeno gafanhoto, faz favor? Dito isso, percebe-se claramente o NÃO nos quatro ditos antes e nada mais se insiste. “Mas é você que tá…” QUIETO, pequeno gafanhoto. O mangá brasileiro então, como eu disse antes, está no lado B, no ainda desconhecido. É o caso de um encadernado que encontrei hoje no sebo, chamado Sugoi, e lançado em 2004. Começando pelo formato, passando pelos tipos de história dentro, tudo tentava repetir o efeito dos periódicos japoneses. Um grande amontoado de autores tentando vender seu peixe, apresentar suas obras, que provavelmente poderiam virar tankohons depois, exatamente como lá. Só que esse é um jogo bem complicado aqui, bem complicado mesmo, e se em 2004 foi lançado e sete anos depois é a primeira vez que ouço falar disso, então… Aliás, é a primeira vez que vocês ouvem também, não é?
Triste quando ESTE é o maior acontecimento desses quadrinhos.Mas essa aposta vai receber reforços em breve. Anunciamos há um tempo atrás uma delas aqui, a Ação Magazine, que segue a cartilha japonesa, como a Sugoi. O que há diferente então, e por quê pode dar certo? Sete anos depois, uma enxurrada de mangás passou por aqui e o público mudou, e muito. E o “mangá brasileiro” tem menos preconceito. Só que, como eu disse antes… É algo desconhecido. O paradoxo pode ser desfeito se fizermos a seguinte linha de pensamento: O fã conhece mangás, é apresentado a projetos de mangá brasileiro, passa a conhecer o formato com mais precisão graças a muitos títulos, e então recebe, nas bancas, um produto novo, similar à fonte daquilo que gosta. Resolve arriscar e é surpreendido com algo de qualidade. Não estou afirmando que a Ação será fantástica, obóvio, afinal, nunca tive em mãos, mas é fácil comparar aos não-mangás brasileiros e se algo foi aprendido nesses anos todos, então pelo menos UMA das histórias nela presta o suficiente para valer a revista. Não é assim no Japão? Não é assim com os quadrinhos americanos pela Panini? Então pode ser assim com ela também. E tem a Personae…
Entendeu, pequeno gafanhoto?Tudo bem, você pode desconhecer a Personae. Ainda é fácil isso. São um grupo pequeno, um povo catarina (conterrâneos, quase vizinhos meus) que não lançou seu encadernado até o momento. Mas assim como o Lancaster (o da Ação), estão investindo e trazem mais autores brasileiros. Logo, em breve teremos muito material para ser lançado. E se não der certo, teremos muitos autores com fome, com vontade de lançar mais, e o mangá brasileiro pode finalmente se mostrar. Assim, como o brasileiro percebeu que seu gibi era diferente das HQ´s, vai perceber que seu mangá é diferente do mangá de lá. E vai acabar essa baboseira toda e poderei ficar tranquilo no meu canto, lendo toda e qualquer coisa que chegue na minha mesa. Menos Luluzinha Teen. Não deu.
Black
O editor-chefe da bagaça aqui. Responsável por tudo que for publicado. É... Legal, hein?
