jan 19 2009
Dissecando Naruto – Primeira Parte

Antes de começar a discussão, vou alertar que tentarei evitar ao máximo possível o uso de spoilers. Porém, e prestem atenção nesse porém, Naruto já foi transmitido até a segunda fase do exame chuunin no Cartoon Network e no SBT no Brasil e qualquer dado sobre essas fases só é spoiler para quem não quis saber do assunto. Até mesmo DVD´s estão aí para vender e o mangá já passou dessa fase há um bom tempo. Vocês foram avisados.
Eu costumo dizer que falar mal de Naruto é chutar cachorro caído. Para mim, essa afirmação tem um sentido diferente da maioria. Há muito Naruto já perdeu a briga, mas não por causa da obra (Que nem ao menos tenta se defender, já que vai muito bem, obrigado), e sim por causa de seus fãs, a maioria com incapacidade para pensar em bons argumentos. Eu sou um desses fãs e acredito ter argumentos sim, mas não venho aqui para defender Naruto e sim para analisar a obra, tanto o mangá quanto o anime. E que se inicie a batalha.
Ele já tá pronto pra brigaNaruto é um shonnen, e alguns, para justificar sua linha editorial, o classificam como shonnen de batalha, ao estilo Dragon Ball Z e Cavaleiros do Zodíaco, em que 75% da trama se constitui em lutas, algumas sem sentido algum. Naruto é, na realidade, um mangá de superação, com um personagem literalmente destruído. A princípio ele não possui moral alguma, é um pária dentro de uma sociedade que não o entende. A trajetória do mangá, então, é da evolução de Naruto Uzumaki dentro desse mundo, buscando um sonho. Não é muito diferente de outros heróis de shonnen. Mas Naruto escolheu a forma mais ridicularizada de chamar atenção: Sendo explosivo, expontâneo, brincalhão, o palhaço de todos.
Tipo… Era pra ser estilo, saca?Esse é possivelmente um dos pontos que mais atrapalha na empatia com o protagonista. Uma geração que se acostumou com heróis sombrios, calados, com pinta de bonzão, não dá espaço para aprendizes de Seiya e Goku. O primeiro é repudiado pela maioria dos fãs de CDZ e o segundo fez sucesso muito antes de alcançar a idade adulta, quando já não era mais tão bobalhão. Assim, Naruto, um pré-adolescente, perde o espaço que poderia ganhar para o eterno rival, Sasuke Uchiha. Mesmo os fãs de Sasuke deixaram-no de lado após sua fase depressiva, chamando-o de emo e traidor. Mas ele é outra história.
Por outro lado, se Naruto não atrai desde o início, seu mundo é, ao menos, curioso. Em uma sociedade diferente da nossa, misturando conceitos feudais e tecnologia, é fato que ninjas possuem poderes especiais e não lembram nem de longe aquelas figuras misteriosas do passado japonês. Possivelmente, de longe, apenas a organização ANBU chega perto, por sua discrição. É aí que a obra leva outro golpe. Quem lê Naruto espera por algo que lembre um pouco os mangás sérios que gosta, e dificilmente é isso que se encontra no início da história. É tudo muito leve, algumas mortes não são levadas exatamente a sério. A luta com Zabuza é provavelmente o primeiro golpe em quem espera uma história infantil.
Mortes violentas e homossexualismo são bons temas pra crianças, claro…Naruto não é, e afirmo com convicção, uma obra infantil. Ao menos não o mangá, em que morte e destruição de conceitos caminham lado a lado. É por causa desse ambiente não tão infantil que o próprio Naruto se destaca. A passos lentos e com muito custo o personagem evolui. É preciso atenção para perceber essa mudança gradual, mas ela está lá e quando se percebe é possível antever as reviravoltas na trama, não todas, claro. Assim como Naruto evolui, o mundo em sua volta segue o mesmo caminho, e somos apresentados a seres como Orochimaru. A partir daí a história dá uma guinada, e Naruto vai se tornando mais poderoso. Poderoso até demais, alguns dizem e a parte de missão ninja começa a sumir. Aí é que o mangá peca um pouco, deixando de lado as técnicas ninja tradicionais, a espionagem e a tática e abrindo espaço para poderes dignos de DBZ.
E lá vai um Radou… Não, não, Kame… NÃO! Rasengan!Mas, se isso acontece, temos personagens como Kakashi Hatake e Shikamaru Nara para contrabalancear. Kakashi, conhecido como ninja das 1000 técnicas, é o mentor do protagonista e tende a lutar sempre com a cabeça no lugar, aquele tipo de personagem que, como eu disse no início, é misterioso, com um passado difícil. Shikamaru é um general, sendo planejando, sempre pronto para liderar um grupo. Enquanto Naruto bate primeiro e pergunta depois, os dois capturam e interrogam seus inimigos. A gama de personagens do mangá é enorme, e possivelmente há um para cada gosto, mesmo que não tenha muita participação. E esse é um ponto a favor do mangá: Há espaço para os coadjuvantes evoluírem, não tendo apenas um protagonista muito poderoso. Logo, não é Naruto quem ganha sempre, muitas vezes perdendo, mas aprendendo algo aí.
Acreditem, tem muito mais personagem do que isso…O aprendizado de Naruto pode incomodar muita gente, que não gosta de ver nos mangás os já batidos temas de amizade, lealdade, do fraco se tornando fraco (E em muito esse pessoal se assemelha ao personagem Neji Hyuuga). Mas é uma característica essencial do mangá, o que permite a Naruto crescer e chegar mais longe, e por esse caminho outros personagens acabam crescendo também. Ele ensina e aprende a medida que vai caminhando. Eu gosto de afirmar sempre que o autor, Masashi Kishimoto, não produz capítulos separados (Como são lidos no Japão), e sim volumes. É o tipo de leitura que não vale muito em fragmentos, mas sim em sequência, completa ou quase isso. Talvez assim melhorasse um pouco seu status.
O mangá definitivamente não é pra qualquer um. E não deveria ser mesmo, afinal, não é o mangá que gerou a modinha (Existe há dez anos, mas só há três começou a fazer sucesso aqui). Leia quem quiser, goste quem quiser. Não é uma obra-prima, mas possui uma boa história e vale a pena, na minha humilde opinião. Tem defeitos, claro, e tentam ser superados. Ainda tem alguma trilha pela frente (Mas eu tô apostando que de 2010 não passa), quem sabe não consegue deixar uma marca melhor por aí.
